'Pesadelo', 'demoníaco', 'vontade de chorar': veja os temas da redação do Encceja 2026 que abalaram candidatos
24/08/2026
(Foto: Reprodução) Imagem compartilhada por candidata do Encceja mostra 'revolta' com tema da redação
Reprodução/Redes sociais
Os temas da redação do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) 2026, aplicado neste domingo (23), parecem ter surpreendido (e frustrado) candidatos.
Aqueles adultos que buscavam um diploma do ensino fundamental tiveram de escrever uma dissertação sobre "Importância do endereço como direito dos cidadãos”. Já os do ensino médio, sobre "Caminhos para garantir os diretos do consumidor”.
"Toda vez que eu penso na redação do Encceja fico com vontade de chorar, meu deus", escreveu uma jovem no X. "Que tema porcaria foi esse?"; "Se eu reprovar na redação, vou culpar aquele tema demoníaco e depois derrubar os sistemas do Inep"; "Não consegui escrever mais de 15 linhas", postaram outros alunos.
Na edição anterior do Encceja, os temas foram: “A importância das creches para a sociedade brasileira” (ensino fundamental) e "Estratégias para enfrentar o vício em apostas na internet” (ensino médio).
➡️Será que esses novos tópicos de 2026 desrespeitaram o padrão do exame?
Segundo a Cartilha do Participante, divulgada pelo próprio Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o tema deve sempre trazer os seguintes elementos:
Relevância social e debate cidadão: A banca busca sempre propor discussões sobre assuntos de extrema importância para a vida em sociedade e que de fato promovam a reflexão.
Ligação com a ética: Por ser um exame de grande visibilidade, os temas costumam destacar preocupações básicas ligadas a princípios éticos.
Foco em um problema: Há sempre uma problematização por trás da discussão levantada. A própria frase temática costuma conter termos-chave que denunciam uma mazela social.
Estímulo ao enfrentamento e à ação: Os temas são delimitados para que o aluno não apenas descreva o problema, mas discuta ativamente formas de solucioná-lo ou enfrentá-lo. No caso do ensino médio, essa característica se conecta de forma obrigatória com a proposta de intervenção, na qual o candidato deve detalhar ações práticas respeitando os direitos humanos.
Tendo esses princípios em vista, os temas de 2026 não desrespeitam o que é estabelecido nas matrizes de referência do Encceja, porque:
colocam em evidência um problema social (falta de acesso a moradias dignas e desrespeito aos direitos do consumidor);
trazem a necessidade de o candidato refletir sobre possíveis soluções;
viabilizam o uso de repertório sociocultural amplo e legitimado pelas áreas do conhecimento — por tratarem de garantias civis básicas, facilitam a introdução de legislações e conceitos consagrados, como a Constituição Federal de 1988 (que fundamenta o direito à moradia e à cidadania) e o Código de Defesa do Consumidor.
Ensino médio
"A prova não alterou a estrutura principal que organiza os temas: discussão de um desafio brasileiro atual relacionado a fatores socioculturais, políticos... Quando a gente fala de direito do consumidor em uma realidade de e-commerce, na qual pessoas compram celular pela internet e recebem uma pedra na caixa, é algo muito atual", afirma a professora Marina Rocha, do Curso Skued e do Curso Raio-X.
"Hoje, é muito fácil comprar e muito fácil vender. Por isso, me pareceu importante levantar o debate. Durante anos, inclusive, esse tema apareceu como uma possibilidade para o Enem."
Segundo Fernanda Becker, analisa pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, o que pode ter incomodado é a abordagem da temática sob um âmbito mais legislativo do que sociológico. Ainda assim, não foi algo que fugiu das regras da prova, diz.
Ensino fundamental
➡️Professores ouvidos pelo g1 ressaltam que uma avaliação mais precisa das propostas exigiria saber exatamente quais os textos de apoio presentes na prova — são charges, poesias, trechos de reportagem ou mapas que dão um suporte para o aluno e mostram o direcionamento esperado. O Inep tem até 10 dias para divulgá-los.
Essa coletânea provavelmente determinou o rumo esperado para a redação do ensino fundamental — embora tenha sido menos criticada nas redes que a do ensino médio, pode até ter sido mais desafiadora.
Segundo Fernanda Becker, a escolha da palavra "endereço" para compor a frase temática tornou o recorte ambíguo.
"Não é possível compreender se o termo é literal, ou seja, se o tema é voltado para o direito a dados como CEP, número e nome da rua, ou se serve como sinônimo de moradia, ou seja, o direito à habitação. Nesse caso, a leitura dos textos presentes na folha de proposta poderia direcionar melhor o candidato nesse sentido", diz.
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